|
Comprar a roupa usada por uma bagatela. Dar aquele desconto especial no preço da carne. Negociar mercadoria também pode, só não vale trocar seis por meia dúzia, mas é permitido levar a roupa íntima da mulher para pagar um aperitivo. Brincadeira? Não. Essa metodologia de comércio não só existe como se tornou sucesso em dois aglomerados de Belo Horizonte. O Alto Vera Cruz e o Taquaril, ambos na Região Leste da capital. A proposta do projeto Vendo ou Troco, da ONG Favela é Isso Aí, com patrocínio do Instituto Oi Futuro, é incentivar o desenvolvimento do comércio local, por meio do cadastro e divulgação das atividades econômicas e mão de obra disponíveis, para incentivar as pessoas a consumir e trabalhar no próprio bairro.
Nos últimos quatro meses, mais de 200 pessoas, entre elas 100 comerciantes, foram cadastradas. As ofertas das lojas e as oportunidades de trabalho estão sendo divulgadas por mensagens enviadas pelo celular, panfletos e informativos. Futuramente, haverá quiosques eletrônicos, com computadores para consultas. Os currículos dos moradores e o cadastro de prestadores de serviço ficarão em um banco de dados e o encaminhamento será feito de acordo com a demanda.
Diagnóstico feito nas duas comunidades constatou que elas têm um comércio intenso, mas carente de apoio e divulgação. O objetivo do projeto é a geração de postos de trabalho, renda e incremento das atividades de micro e pequenas empresas, a partir do protagonismo local. A expectativa é de que cerca de 500 pessoas sejam diretamente envolvidas. Os principais ramos do comércio dão o alimentício e o de vestuário. Há também lojas de eletroeletrônicos, peças automotivas, móveis, papelaria, ótica e drogarias. Entre os serviços, o grande destaque fica por conta dos salões de beleza.
A articulação de mensagens de texto entre os comerciantes e moradores é feita por meio do Alô Cidadão!, projeto desenvolvido desde 2006 pelo Instituto Hartmann Regueira, em parceria com o Oi Futuro, na Pedreira Pedro Lopes, na Região Noroeste de BH. Os torpedos (um por dia) informam também sobre vagas de emprego, eventos culturais e notícias dos bairros. “O Vendo ou Troco é um projeto piloto que queremos levar para outras comunidades. A idéia é contemplar todos os moradores, criando uma grande rede de informação e comunicação”, afirma o articulador comunitário da Favela é Isso Aí, Edmar Pereira.
A loja de João Barros, de 58 anos, conhecido como Bin Laden, Barba ou Bigode, poderia até se tornar um estudo de caso em alguma faculdade. Localizada no Taquaril, tem de tudo. Difícil é não achar o que se procura. O lugar é, ao mesmo tempo, bar, mercearia e bazar. De qualquer ferramenta a refrigerante, papel higiênico, roupas, bijouterias e sapatos. Os objetos estão cuidadosamente organizados em prateleiras e nas paredes, num estilo que o dono faz questão de explicar: “Nas paradas de ônibus, sempre achei bonito aquele monte de coisas em um canto”.
Há freguês que chega para comprar com dinheiro no bolso, outros pedem para trocar mercadorias. Dá uma peça de roupa e leva um par de sapatos, fora outros itens bem inusitados. Um cliente antigo já entregou a Bin Laden 13 calcinhas de mulher, em troca, a cada vez, de uma dose de cachaça. “Aceito só para ele não beber de graça, pois calcinha é difícil vender”, comenta o comerciante. A freguesia é fiel e, entre um negócio e outro, surgem grandes amizades. No momento, o sonho do alagoano é conseguir cerca de R$ 2 mil para comprar mais mercadorias e incrementar a loja. “Espero aumentar o faturamento com este projeto. Talvez venha gente de longe para comprar”, diz. E aproveita para lançar a promoção: “Vendo cada peça de roupa por R$ 0,30, mas tem de levar tudo. Quero desocupar o lugar para pôr outros tipos de mercadoria”, diz, com um sorriso de menino no rosto tomado pela barba.
Assim como Bin Laden, no Alto Vera Cruz os comerciantes estão ansiosos pelos resultados do Vendo ou Troco. O açougue de Antônio Rufino Ribeiro, de 43 anos, a Boutique da Carne, está no Alto Vera Cruz desde 2003. Oferece vários tipos de carne, aceita todos os cartões de crédito, tíquete e mantém ainda um sistema de caderneta para os cliente fiéis. Por todos os lados, placas mostram as ofertas, como bife a R$ 9,99, pernil a R$ 7,49 e costela de boi a R$ 4,99. A concorrência é acirrada. Só na área de Ribeiro há quatro açougues num espaço de quatro quarteirões. Em todo o Alto Vera Cruz, pelo menos outras 10 pessoas têm a mesma atividade. “Conto com este programa para crescer. Divulgando, a tendência é melhorar as vendas e, se saímos primeiro, estamos em vantagem. O resto vem depois, para não ficar para trás”, afirma o comerciante, que aposta num aumento de 10% a 30% no faturamento.
Jéferson Nogueira Neves, de 40, dono da Refrigeração Neves, se animou com a novidade e não perdeu tempo quando a estudante Ariana Costa Araújo, de 16, passou na loja para cadastrá-lo no programa de divulgação. Assim como a garota, outros adolescentes, moradores dos dois aglomerados, recebem uma ajuda de custo pelo trabalho. São quatro folhas de perguntas, que abordam, entre outros pontos, os problemas vividos na comunidade. Ela faz, em média, 10 inscrições por dia. “Muita gente tem medo de responder, pois pensa que é alguma fiscalização”, afirma.
O Vendo ou Troco e o Alô Cidadão! Foram selecionados pela edição 2008 do Novos Brasis, do Instituto Oi Futuro, programa de apoio ao desenvolvimento de iniciativas sociais que apliquem tecnologias da informação e da comunicação a favor da cidadania. Segundo a diretora de Educação da instituição, Samara Werner, se o projeto de BH tiver bons resultados, será ampliado para outras cidades. “Fico feliz, pois há muitas iniciativas interessantes espalhadas pelo país, ideias legais que podem fazer a diferença, mas elas precisam ser difundidas. Temos o papel de acreditar nessas novas iniciativas, apoiar projetos, facilitar a apresentação e dar visibilidade. A tecnologia é um meio por onde é possível circular informações importantes e temos de aproveitar essa possibilidade”, ressalta.
Fonte: Jornal Estado de Minas”, caderno “Gerais / Prazer em Ajudar”.
|